quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Alzheimer pode ser "diabetes cerebral", diz pesquisa da UFRJ

Novos dados obtidos por pesquisadores da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) reforçam a ideia de que há uma relação íntima entre o diabetes e o mal de Alzheimer, devastadora doença degenerativa do cérebro. 
Para ser mais exato, o Alzheimer seria, grosso modo, a diabetes do cérebro, interferindo na sinalização do hormônio insulina, o mesmo cuja ação fica desregulada no organismo de diabéticos. 
"É claro que o mal de Alzheimer continuará sendo uma doença multifatorial [ligada a múltiplos fatores]", disse à Folha a neurocientista Fernanda de Felice, do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ. "Mas achamos que a insulina pode ser central na gênese da doença."
De Felice apresentou os últimos resultados a respeito da ideia durante o 34º congresso anual da SBNeC (Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento), na cidade de Caxambu, em Minas Gerais.
Estudos com dois tipos de cobaias --camundongos transgênicos e macacos cinomolgos (Macaca fascicularis)--, feitos pelos cientistas da UFRJ, indicam que remédios originalmente projetados para tratar diabetes poderiam, portanto, ser úteis contra o Alzheimer, mal que ainda não tem cura.
As primeiras pistas sobre o mecanismo ligando as duas doenças vieram de estudos in vitro. Sabe-se que o Alzheimer é desencadeado por maçarocas da proteína beta-amiloide, que têm efeitos nada agradáveis sobre o funcionamento dos neurônios. 
Um desses efeitos é a diminuição no número de projeções das células nervosas. Isso, por sua vez, tem impacto negativo nas conexões de neurônios, cruciais para a memória (veja quadro)
De Felice e seus colegas tinham verificado, em pesquisa publicada no ano passado na revista científica "PNAS", que as maçarocas de beta-amiloide tendiam a ficar grudadas justamente em regiões da membrana das células onde a insulina se "conecta". Bastava fornecer insulina aos neurônios para impedir que isso acontecesse e protegê-los da perda de conexões.
DESEMPENHO
Agora, com as cobaias, eles viram que medicamentos que potencializam a ação da insulina não só combatem a beta-amiloide como também fazem com que bichos doentes tenham desempenho melhor em tarefas de memória, por exemplo.
De Felice conta que já há planos para testar drogas contra diabetes em pacientes com Alzheimer. Os pesquisadores da UFRJ querem que parte desse teste clínico envolva pacientes brasileiros.
Por enquanto, quem tem a doença não deve arriscar uma aplicação de insulina, pois o organismo pode até ficar resistente ao hormônio. 

 Fonte:REINALDO JOSÉ LOPES - Folha de São Paulo


terça-feira, 14 de setembro de 2010

Exame de sangue pode detectar Alzheimer, diz estudo

Um exame de sangue simples pode ser capaz de diagnosticar o mal de Alzheimer, disseram pesquisadores dos Estados Unidos na segunda-feira, numa descoberta que pode ampliar a detecção da doença. 
O mal de Alzheimer, a forma de demência mais comum que existe, afeta pelo menos 26 milhões de pessoas no mundo todo. Não há cura, mas o tratamento paliativo apresenta melhores resultados se for iniciado prematuramente. 
Outras equipes já haviam descoberto um diagnóstico precoce a partir do fluido vertebral, o que exige uma punção na coluna, procedimento que pode ser doloroso. Além disso, empresas especializadas em diagnóstico por imagem estão concluindo os testes de novos agentes capazes de tornar as placas (lesões) cerebrais visíveis em tomografias, um recurso disponível apenas em centros especializados.
Um exame de sangue tornaria o diagnóstico muito mais simples, segundo Sid O'Bryant, do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Texas Tech, em Lubbock.
"Um exame sanguíneo abre acesso a todos. Qualquer clínica pode fazer isso. Até mesmo enfermeiras de cuidados domésticos podem fazer", disse O'Bryant, cujas conclusões foram publicadas na revista "Archives of Neurology".
A doença atualmente é diagnosticada pelos sintomas, e só pode ser confirmada por exames cerebrais após a morte.
Segundo O'Bryant, tentativas anteriores de fazer diagnósticos do mal de Alzheimer pelo sangue se mostraram falhas.
O novo exame busca mais de cem proteínas e combina isso com informações sobre os pacientes, inclusive se eles são portadores de um gene de risco para o Alzheimer, chamado APOE4. Uma análise informatizada então estabelece o grau de risco do paciente.
"Nossa taxa geral de sucesso em detectar portadores do mal de Alzheimer é de 94%. Mas o acerto total em classificar os que não têm o mal de Alzheimer é de 84%" disse o cientista.
O próximo passo será ver se o teste pode prever quem vai desenvolver o Alzheimer. O teste do fluido vertebral parece ser capaz de fazer isso.
Um outro estudo na mesma publicação, liderado por David Geldmacher, do Sistema de Saúde da Universidade da Virginia, avaliou se o medicamento pioglitazone, usado contra diabetes, pode combater a inflamação que causa a morte de células cerebrais em pacientes com Alzheimer.
Geldmacher alertou que ainda é preciso aprofundar o estudo, e que pesquisas mais amplas com drogas da mesma classe não confirmaram nenhum benefício na terapia do mal de Alzheimer. 
Forma de demência mais comum que existe, o mal de Alzheimer afeta pelo menos 26 milhões de pessoas no mundo  


 Fonte: DA REUTER - Folha de São Paulo

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Psicanálise e neurociência

Os psicólogos se sentem cada vez mais e temerosos de perder seus pacientes para psiquiatras

Existe, hoje em dia, uma assombração que ronda os consultórios dos psicólogos e dos psicanalistas: a Neurociência. Os psicólogos se sentem cada vez mais e temerosos de perder seus pacientes para psiquiatras que, por sua vez, têm acesso cada vez maior a um grande número de medicações para todos os tipos de desconforto psíquico. As relações entre Psicologia e Neurociência estão cada vez mais tensas.
Essa tensão reflete não apenas a indisponibilidade das pessoas para tratamentos mais longos através da psicoterapia como também um embate teórico. A Neurociência sustenta que a mente é um produto do cérebro e que o mental é redutível ao cerebral. Há uma espécie de consenso social velado acerca dessa posição que, no entanto, se choca frontalmente com nossas crenças religiosas mais arraigadas segundo as quais o cérebro é apenas o hospedeiro biológico de uma mente imortal.
Mas essa posição tropeça em vários obstáculos. Aproximamo-nos de saber como o cérebro pode produzir a mente e onde ela se localiza, mas há uma questão que permanece intratável: o problema da causação mental. Não sabemos como o mental pode interferir no físico, pois não sabemos se é o cérebro que controla a mente ou se ocorre o oposto. Os psiquiatras parecem apostar na primeira possibilidade e os psicólogos e psicanalistas na segunda. Psiquiatras apostam na medicação; psicanalistas, na psicoterapia.
Os neurocientistas nos dizem que teorias psicológicas fundadas em ideias como as de apego, ressentimento, assertividade etc., desaparecerão na medida em que formos identificando seus correlatos neurais. Sentimentos, como a angústia, a inveja, etc., seriam meras ilusões que cederiam através do tratamento pelo uso de medicamentos. A felicidade é, para muitos neurocientistas, uma conquista farmacêutica. Isso reflete a ideia de que se, não podemos mudar o mundo, é melhor que mudemos nosso cérebro.
São ideias assustadoras. Mas, o que deve soar como algo ainda mais paradoxal para os psicanalistas é o fato de elas terem sido preconizadas pelo próprio Freud. Numa passagem conhecida do Esboço de Psicanálise, ele afirmou que “o futuro talvez nos ensine a agir diretamente, com a ajuda de algumas substâncias químicas, sobre quantidades de energia e sua distribuição no aparelho psíquico. Por ora, dispomos somente da técnica psicanalítica”.
Será que os psicanalistas se esqueceram dessa passagem? Será que já estamos vivendo os dias nos quais já não precisamos da Psicanálise e da Psicoterapia? E nos quais admitiríamos, seja como freudianos, seja como psiquiatras, que a felicidade é só um estado cerebral fugaz. A Neurociência teria achado atalhos alternativos à técnica psicanalítica?
Uma das razões do desconforto dos psicanalistas com a Neurociência está no fato de que Freud é estudado como o autor de um texto cuja exegese não deve terminar nunca. A exegese do texto de Freud é praticada, nos dias de hoje, tanto pelos psicanalistas quanto por alguns filósofos. Isso tornou a Psicanálise um gueto que enfrenta uma condenação à morte por não se deixar transformar. Um psicanalista ortodoxo praticamente não tem o que dizer acerca de remédios psiquiátricos. Freudianos e lacanianos repudiam a neuropsicanálise.
Para os psicólogos cognitivo-comportamentais, o uso de drogas psiquiátricas é encarado com menos aversão, embora ainda cause algum mal-estar. A suspeita com relação ao uso dessas drogas recai no fato de elas ofuscarem a cognição, produzindo um conforto tão provisório quanto falso, que impede a percepção e a modificação do ambiente pelo sujeito. Esta condenação só não se torna mais explícita porque terapeutas cognitivos comportamentais fazem uma espécie de profissão de fé materialista, o que, num certo sentido, faz com que eles inclinem suas simpatias em direção ao materialismo e à Neurociência.
Ora, a razão para o embate entre, de um lado, psicólogos e psicanalistas e, de outro, os neurocientistas está no modo como se concebe o problema mente-cérebro e, mais precisamente, a causação mental. Tudo depende de apostar mais na mente ou no cérebro. Isso faz com que muitos psiquiatras vejam a Psicanálise como uma perfumaria herdada do passado e os psicanalistas, por sua vez, ataquem cada vez mais o reducionismo mente-cérebro. Mas esse é um falso embate. Tanto a medicação quanto a psicoterapia desempenham um papel fundamental na causação mental.
Estudos recentes mostraram que a Psicoterapia altera de maneira significativa o funcionamento e as conexões cerebrais. Constata-se uma mudança no fluxo sanguíneo do sistema límbico e que, em alguns casos, quando esta é associada à medicação, o aumento desse fluxo sanguíneo chega também aos gânglios basais. A ressonância magnética funcional e a tomografia axial mostram que, no caso de pacientes que sofrem de depressão, a terapia opera mudanças no córtex frontal, no córtex cingulado anterior e no hipocampo. Uma reorganização da conectividade cerebral ocorre após a Psicoterapia. Psicanálise, Psicoterapia e Neurociência convergem uando adotamos uma perspectiva naturalista acerca do mental.
Não há contradição entre o Freud da Psicoterapia e o mesmo Freud que nos seus escritos de maturidade defendeu abertamente a possibilidade de tratar as angústias e outros distúrbios através de medicação. Da mesma maneira, neurocientistas devem levar a sério o que disse seu colega Antonio Damásio, ao afirmar que “pode-se morrer de desgosto, tal qual na poesia”.

Fonte: Revista Filosofia - Editora Escala

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Remédios contra insônia e ansiedade aumentam risco de morte, diz estudo

Pessoas que tomam remédios para dormir e reduzir a ansiedade parecem ter maior risco de morrer precocemente, segundo recente estudo da Universidade de Laval, no Canadá. Avaliando dados de um acompanhamento de 12 anos a mais de 14 mil adultos canadenses, os especialistas descobriram que aqueles que usavam esse tipo de medicamento tinham mortalidade 36% maior do que os participantes que não tomavam remédios para tratar insônia e ansiedade.

Publicados na última edição do Canadian Journal of Psychiatry, os resultados indicaram que aqueles que relataram o uso desse tipo de medicação pelo menos uma vez por mês tinham uma taxa de mortalidade de 15,7%, enquanto os participantes que não tomavam esses remédios apresentaram uma taxa de mortalidade de 10,5%. Considerando fatores como consumo de álcool, tabagismo, níveis de atividades físicas e presença de depressão, os pesquisadores calcularam que aqueles que usam remédios para dormir ou antiansiolíticos teriam 36% maior risco de morrer.

Os resultados não indicam as razões dessa relação, mas os especialistas levantam diversas hipóteses para explicá-la. Uma delas seria o fato de esses medicamentos afetarem o tempo de reação, a coordenação motora e o estado de alerta, podendo aumentar as chances da ocorrência de acidentes. Eles também podem afetar o sistema respiratório - agravando problemas respiratórios durante o sono - e o sistema nervoso central, afetando a capacidade de julgamento - o que poderia aumentar os riscos de suicídio.

 Escrito por Leandro Perché

Transtorno afeta 67% das crianças que trabalham na rua

São Paulo - Além de sofrerem violência física em casa, 67% das crianças que trabalham nos semáforos das ruas de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, e dos Jardins, zona sul, apresentam transtornos emocionais. De 185 que trabalham nessas áreas, 124 têm problemas como hiperatividade, fobias e depressão. Entre as crianças analisadas, todas tinham nível de estresse superior aos limites normais.

O diagnóstico resulta de pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), finalizada na semana passada. Entre as crianças emocionalmente abaladas, 27% têm diagnóstico fechado para distúrbios graves, como déficit de atenção e hiperatividade, transtorno de conduta (personalidade antissocial), depressão, fobias, enurese (urina durante o sono, ligada a questões emocionais) e transtorno de oposição e desafio (agressividade).

Nos depoimentos, as crianças falam em abusos sexuais (15,5% afirmaram terem sido molestadas nos semáforos), situações de violência (32,8% disseram ter sofrido espancamento) e abusos emocionais (31,6% sofrem xingamentos constantes de motoristas - o que traumatiza principalmente as mais novas).

"A pesquisa é representativa de toda a periferia da capital paulista. Retrata a situação de famílias desestruturadas, que têm renda miserável e não veem outra opção a não ser trabalhar nas ruas", disse a coordenadora do estudo, Andrea Feijó de Mello, pesquisadora do Programa de Atendimento e Pesquisa em Violência (Prove) da Unifesp. "Há milhares de crianças assim, a maioria não atendida por programas assistenciais." As informações são do jornal
O Estado de S. Paulo.
AE

sábado, 4 de setembro de 2010

Tristeza fora de hora

O nascimento de um filho é motivo de alegria quase incontestável. Mas algumas mulheres não conseguem aproveitar esse momento por causa da depressão pós-parto. O psiquiatra Amaury Cantilino conta que a situação não é incomum e tem solução

Uma sensação de inadequação ao seu novo mundo, vontade de chorar, angústia. E tudo isso não passa quando a mulher olha para aquele rostinho lindo no berço. Até piora. A depressão pós-parto atinge 12% das mães em todo o mundo. Muitas tentam esconder o sentimento, agravado pela vergonha de não se adaptar aos padrões de maternidade feliz mostrados na televisão, ou decantados por suas amigas. “Fingir que não está acontecendo nada é o pior que se pode fazer”, diz o psiquiatra Amaury Cantilino. Doutor em Neuropsiquiatria e coordenador do Programa de Saúde Mental da Mulher da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o médico estuda depressão pós-parto há dez anos e já tem vários trabalhos publicados sobre o assunto. Vem dele uma notícia alentadora: “Depressão pós-parto pode ser facilmente tratada”.
Quais as principais causas da depressão pós-parto?
A principal causa é biológica. Logo depois do parto há uma queda abrupta nos níveis de estrógeno, o hormônio feminino. No final da gravidez ele está centenas de vezes mais alto do que no caso de uma mulher não grávida. Nas primeiras 48 horas depois do parto, volta aos níveis pré-gravidez. É brutal. Sabemos que há uma relação íntima entre os níveis de estrógeno e de serotonina, o neurotransmissor envolvido no humor. Daí a depressão. Juntase ao desequilíbrio hormonal o fator social. A mulher fica totalmente envolvida com os cuidados com o bebê, o corpo ainda não voltou ao seu normal, muitas se preocupam com o mercado de trabalho, outras sentem que perderam o protagonismo que tinham durante a gestação. É muita mudança. Acho esse período um verdadeiro teste de sanidade. Se a mulher passar bem por ele, deve encarar bem qualquer situação.
Dormir pouco também pode agravar a depressão?
Com certeza, o sono fragmentado é um agravante. Uma experiência interessante foi realizada pela Universidade de McMaster, no Canadá. Eles criaram um programa por meio do qual a mulher dorme a noite toda, por pelo menos seis horas, durante cinco dias na primeira semana depois do parto, sem ter seu sono interrompido pelo choro ou para amamentar. Para conseguir isso, elas contam com a ajuda da família e tiram o leite durante o dia. O estudo ainda está em andamento, mas os dados preliminares mostram que essas mulheres têm uma chance muito menor de desenvolver a doença.
Quem é mais suscetível a apresentar o quadro?
As mulheres que viveram situações estressantes durante a gravidez, como a morte de um ente querido, têm mais chance de desenvolver o problema. Outro fator determinante é o apoio familiar. As que recebem menos apoio são bem mais suscetíveis. Mesmo que o excesso de palpites da mãe ou da tia possa incomodar, é importante tê-las por perto. Parece não haver uma relação da doença com classe social. Uma pesquisa realizada em Recife indica que a prevalência é a mesma entre as mães que tiveram filhos em hospitais públicos ou privados. Por fim, quem costuma ter tensão pré-menstrual (TPM) intensa, principalmente com sintomas afetivos como irritação e sensibilidade, também está mais propensa à depressão pós-parto, bem como mulheres que passaram por gravidez múltipla.
Quem teve depressão na primeira gravidez terá também na segunda?
A chance é bem maior. E quem não teve na primeira gravidez pode ter na segunda.
A maioria das mães que sofrem com a doença têm pensamentos obsessivos, como jogar o bebê pela janela. Ela não quer pensar assim. Isso, é claro, causa angústia
É possível perceber algum sintoma durante a gravidez?
Sim. Entre eles estão preocupações excessivas, medo intenso em relação ao parto, medo de assumir responsabilidade de mãe. Tensão muscular e dificuldade para se concentrar também são indícios.
Há alguma coisa que possa ser feita ainda durante a gravidez?
Algumas atitudes podem ajudar a acalmar a futura mãe e, assim, reduzir a chance de a doença aparecer. Vale já programar quem vai cuidar da criança, conversar com possíveis babás, fazer cursos. Enfim, coisas que possam reduzir a ansiedade. Os tratamentos medicamentosos parecem não funcionar. Mulheres que tiveram depressão depois da primeira gravidez foram aconselhadas a tomar antidepressivo durante a segunda gestação. Mas os benefícios não foram significativos.
Existe alguma ligação entre amamentação e depressão?
Amamentar não aumenta nem diminui a chance de desenvolver a doença. Mas é certo que mães deprimidas têm muito mais dificuldade para amamentar porque diminui o tempo que a mulher se dispõe a isso.
Como fica a relação com o bebê?
O contato é menos afetuoso. A maioria das mães que sofrem com a doença apresenta pensamentos obsessivos, como jogar o bebê pela janela. Ela não quer pensar assim, claro, e isso causa angústia e faz que se afaste do bebê, dificultando o vínculo da mãe com o filho. Há um impacto no desenvolvimento do bebê. Na vida adulta, há uma chance maior de sofrerem com ansiedade e depressão.
A depressão pós-parto costuma piorar ao longo dos dias, ficando mais intensa. sem tratamento, pode durar até 12 meses
A mãe pode pôr em prática os pensamentos obsessivos?
Não, isso nunca acontece nos casos de depressão pós-parto. Há um quadro, muito mais grave, chamado psicose puerperal, que pode levar a mulher a fazer algo que fira o bebê. Ocorre em 0,2% das gestações.
Como se trata a depressão?
O tratamento envolve duas frentes: a farmacológica e a psicoterápica. Dentre os tipos de psicoterapia, as que parecem funcionar melhor são a cognitiva e a interpessoal. A cognitiva envolve os pensamentos que temos sobre as mais diferentes situações. Por exemplo, a mulher com depressão não consegue ficar sozinha com o bebê, se sente presa nessa situação. Isso faz que pense uma série de coisas que a deixam ainda mais deprimida. A terapia www.revistavivasaude.com.br cognitiva ajuda a mulher a reestruturar esses pensamentos. Já a interpessoal foca nas relações sociais. Ela tende a se retrair e isolar. Uma vez sozinha, não experimenta prazer. As terapias funcionam para quem tem depressão leve. As que têm moderada ou grave, o que acontece em cerca de 5% dos casos, precisam também usar medicação. Existem remédios que podem ser tomados enquanto se amamenta sem afetar o bebê.
Existe uma forma mais leve, chamada blues?
Cerca de 60% das mulheres ficam hipersensíveis nos primeiros dias após o parto. Sentem tristeza e irritação. Depois do pico, esse incômodo vai diminuindo sua intensidade. Em duas semanas tende a desaparecer.
Até quanto tempo depois do parto a depressão pode aparecer?
Até um ano, mas o mais comum é que surja algumas semanas depois do fim da gravidez.
Como o pai pode ajudar?
Sobretudo com muita compreensão. É comum a mulher ficar aborrecida com o marido. Afinal, a vida dele continua mais ou menos a mesma, ele sai para trabalhar, dorme bem. Ele nunca deve pensar que é uma bobagem.
Quando é hora de procurar ajuda
alguns indícios mostram que a mãe precisar consultar um médico.
• Angústia.
• Medo de ficar sozinha com o bebê.
• Dificuldade para amamentar.
• Pensamento recorrente de agredir o bebê, embora não se tenha intenção alguma de fazer isso.
• Choro constante.
• Dificuldade no contato com o marido e familiares.
• Sensação de aprisionamento.
• Dificuldade para dormir, mesmo quando o bebê adormece.
• Pensar que seria melhor não ter tido o bebê.

Fonte:Dr.Amaury Cantilino-Psiquiatra

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Memória explica por que o vício continua mesmo quando a droga não dá mais prazer




Das coisas que as pessoas fazem, poucas são tão intrigantes para um psiquiatra quanto o uso compulsivo de drogas. Claro, todas as drogas causam uma sensação boa – pelo menos no começo. Para a maioria das pessoas, porém, a euforia não dura. Um paciente meu é dos mais típicos.
“Sei que isso soará estranho”, disse ele, “mas a cocaína já não me deixa alucinado, e mesmo assim não consigo parar”.
Quando começou a usar a droga, em seus trinta e poucos anos, meu paciente passava dias em festa, praticamente sem comer ou beber. A sensação era melhor do que qualquer coisa, até mesmo sexo.
Alguns meses depois, porém, ele havia perdido a euforia – seguida por seu emprego. Apenas quando sua esposa ameaçou deixá-lo é que ele finalmente buscou tratamento.
Quando o conheci, ele me disse que iria perder tudo caso não parasse com a cocaína. Bem, eu perguntei, por que ele gostava tanto dessa droga, se ela lhe custava tanto e não o fazia mais se sentir bem? Ele me olhou de forma vazia. Não tinha a menor ideia.
E a maioria dos psiquiatras também não tinha, até recentemente.

Sistema de recompensa

Entendemos muito bem a atração inicial das drogas. Seja a cocaína, o álcool, os narcóticos, qualquer uma delas, as drogas ativam rapidamente o sistema de recompensas do cérebro – um circuito neurológico primitivo enterrado embaixo do córtex – e libera dopamina. Esse neurotransmissor, que é central ao prazer e ao desejo, envia uma mensagem ao cérebro: esta é uma experiência importante que vale a pena ser lembrada.
Nós não teríamos chegado muito longe como espécie sem esse sistema do cérebro, que nos motiva a buscar recompensas como alimentos e um bom companheiro. O problema é que, embora esses reforços naturais ativem o sistema de recompensas, drogas que alteram a mente o fazem de maneira bem mais poderosa, causando uma liberação de dopamina muito maior.
Em outras palavras, as drogas possuem uma vantagem competitiva sobre as recompensas naturais, e podem sequestrar o sistema de recompensas do cérebro.
Mesmo assim, o prazer agudo desaparece quando os neurônios do circuito de recompensas se acostumam a toda aquela dopamina. Eventualmente, como ocorreu com meu paciente, mesmo doses cada vez mais altas deixam de surtir efeito, à medida que os usuários tentam, em vão, recapturar a sensação inicial. Então o que explica o uso compulsivo de drogas, especialmente quando ele leva o usuário ao limite da ruína pessoal?

Memória

Eu recebi uma dica com a última recaída de meu paciente. Após quase seis meses de abstinência, ele se viu inexplicavelmente tendo desejos por cocaína ao voltar do trabalho para casa.
Na porta do escritório, ele encontrara casualmente um velho amigo – com quem havia usado drogas, anos antes. Embora não tenha associado conscientemente o amigo às drogas, seu cérebro não se esqueceu, e o encontro desencadeou o desejo de usar novamente.
Em resumo, drogas como cocaína não usurpam somente o circuito de recompensas do cérebro; elas surtem poderosos efeitos também sobre o aprendizado e a memória.
Muitos estudos de geração de imagens cerebrais, usando exames PET (sigla em inglês para tomografia por emissão de pósitrons), mostram que pequenas dicas, como ver equipamentos para uso da droga, por si só já são suficientes para ativar circuitos da memória e libertar o desejo. Informações como onde você está e o que está fazendo enquanto usa uma droga como a cocaína ficam intrinsecamente ligadas à sensação. E essas associações ficam armazenadas não só em sua memória consciente, mas também nos circuitos fora de sua consciência.
Esse tipo de aprendizado patológico fica no núcleo do uso compulsivo de drogas. Muito tempo depois de alguém ter aparentemente abandonado o hábito, muito tempo depois de terminarem os sintomas da abstinência, o indivíduo está vulnerável a essas associações inconscientes, profundamente codificadas, que podem desencadear um desejo, aparentemente do nada.
Eu não podia reconstruir o cérebro do meu paciente. Mas podia ao menos tentar ajudá-lo a reconfigurar seu ambiente, evitando dicas que possam provocar o desejo pela cocaína. Pedi que ele escrevesse uma lista de todas as pessoas e lugares que ele associava a seu uso de droga – e então o fiz ficar longe do máximo possível deles. Sua sorte foi que ele nunca usou drogas em casa.

Vida sem entusiasmo

Mas seus problemas não terminaram ali. Mesmo estando livre da cocaína por quase dois anos, ele sente que a vida não tem brilho e não tem entusiasmo. E essa experiência é consistente com evidências recentes, dizendo que os efeitos de drogas como a cocaína podem perdurar por muito tempo depois que o uso foi interrompido.
Através de exames de tomografia, a Dra. Nora D. Volkow, psiquiatra e diretora do Instituto Nacional do Uso de Drogas dos EUA, mostrou que pessoas dependentes de metanfetaminas têm 25% menos transportadores de dopamina em regiões críticas do cérebro, em comparação a voluntários normais. Como os transportadores levam a dopamina para dentro e para fora dos neurônios, essa queda significa menor liberação de dopamina – e um circuito de recompensas menos sensível.
Terrivelmente, essa redução nos transportadores de dopamina foi apresentada em sujeitos que não haviam usado metanfetaminas por pelo menos 11 meses, sugerindo que o efeito era de longa duração – talvez até mesmo permanente.
Embora meu paciente nunca tenha usado metanfetaminas, a cocaína tem efeitos similares no cérebro. Com anos de uso, ele poderia ter perdido transportadores de dopamina suficientes para que seu sistema de recompensas ficasse entorpecido aos prazeres cotidianos. Afinal, para a maioria dos cérebros, um bom jantar com os amigos ou um lindo pôr-do-sol não são se comparam à euforia da cocaína.
Ainda não sabemos se a perda dos transportadores de dopamina é permanente ou eventualmente reversível. Mas por que se arriscar a levar uma vida entorpecida? A simples verdade é que o prazer das drogas é uma cruel ilusão: ele nunca dura.

Fonte: Richard A. Friedman é professor de psiquiatria no Weill Cornell Medical College